terça-feira, 6 de agosto de 2013

Tatuagens

Flávio esperava ansiosamente que sua tatuagem nova terminasse de despelar. Faltavam 4 dias para o show do Chiclete e essa figura tribal registrada na parte externa do braço iria combinar perfeitamente com a colorida mortalha do evento.

Sua mãe implicava com tatuagens, sempre achou coisa de vagabundos e maloqueiros.


Mas ele sabia que as gatas curtiam os caras tatuados e que estava na moda. A mesma moda que, 16 meses atrás, o levou a marcar um escrito em chinês no tríceps direito. Representava seu signo, Virgem. Mas, na verdade, estava escrito ‘boi’.

Flávio fazia faculdade de Educação Física e trabalhava meio período numa loja do shopping. Não levava nada disso muito a sério. No momento, o que mais curtia mesmo era ter fama de pegador.

Sua rotina e estilo de vida jamais permitiriam que ele conhecesse Paty. Talvez, nem o acaso teria tanto poder para realizar tal façanha.

Paty: de virgem, nem o signo.

Sua adolescência foi meio perturbada em função do divórcio dos pais e, talvez por isso, ela tenha se aventurado em relações amorosas (mais físicas que sentimentais) um tanto conturbadas. Não era donzela, mas também não era exatamente uma garota vulgar. Teve suas experiências.

Paty se tatuou no final da década de 90, aos 17, num estúdio próximo à estação do metrô. Ninguém exigiu um documento que testificasse sua maioridade. Afinal, quem duvidaria daquele mulherão. Ela tinha 1,79. Suas pernas eram enormes. E, por isso, reproduziu uma borboleta bem na panturrilha. Todos achavam linda.

O inseto fora exibido por meio de saias curtas durante anos. Até que ela se tornasse supervisora numa grande empresa e tivesse que trabalhar de uniforme.

Esse uniforme era costurado pela mãe de Tiago, um jovem skatista, recém chegado ao Recife e repleto de ideologias. Sua tatuagem dorsal representava um pouco disso: os bustos de três grandes homens – Marx, Durkheim e Weber. Com Marx ao centro, maior.

Ele vibrava pelo skate, mas alimentava sua alma revolucionária com debates socialistas.

Em função do esporte, os tênis de Tiago eram verdadeiros guerreiros: duravam meses em seus pés. Nos pés de outro qualquer, durariam apenas algumas semanas. Enfim, ele precisava de um novo par. E, mesmo detestando a burguesia e repulsando radicalmente as sociedades capitalistas, teria de comprar um novo tênis.

No mundo moderno, entende-se que esses dualismos são corriqueiros.

Foi aí que ele precisou usar o cartão da mãe no shopping, onde comprou um tênis de um vendedor chicleteiro que esbanjava simpatia; que xingou de burra uma mulher alta, que tinha uma borboleta na perna e que trombou com ele no estacionamento, enquanto procurava o celular em sua bolsa dourada.



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