quarta-feira, 15 de maio de 2013

Dostoiévski


Quando se encontraram, logo perceberam que ele se gabava – daquele tipo que cita Dostoiévski. Nunca leu Dostoiévski. Mas cita Dostoiévski.

Não necessariamente seus versos ou trechos, mas, de maneira genérica, o existencialismo. Assunto que também não domina com profundeza. Mas como soa bem esse vocábulo...




Torna-se explícita sua artimanha: enroupar-se dos pilares mais notados para assegurar a boa impressão. Não que seja néscio. Mas seu esforço direciona-se ao exibicionismo e não ao aprendizado.

Uns exibem grifes. Ele citava clichês.

[alguns diziam que porque era feio, ostentava sua vaidade intelectual. Isso garantia à sua alma um pouco mais de aconchego. Se não podia contar vantagem com a casca, sua imodéstia alardeava uma faceta de seu presunçoso caráter]

Costumeiramente, preparava-se de modo minucioso para adornar sua vitrine de ligeiros conhecimentos. Cada pormenor é lapidado para ostentar sua habilidade em assuntos gerais aparentemente inteligentes.

Muitos impressionam-se. Seus discursos silenciam. Garotas admiravam-no.

Ele sabe que citar Dostoiévski impressiona. Sempre soube.

O nome Dostoiévski impressiona. Poucos conhecem Dostoiévski. Quantos leram Dostoiévski? Quem sabe escrever Dostoiévski?

Mas Dostoiévski é um nome que impressiona.



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