Quando se encontraram, logo perceberam que ele se gabava –
daquele tipo que cita Dostoiévski. Nunca leu Dostoiévski. Mas cita Dostoiévski.
Não necessariamente seus versos ou trechos, mas, de maneira
genérica, o existencialismo. Assunto que também não domina com profundeza. Mas
como soa bem esse vocábulo...
Torna-se explícita sua artimanha: enroupar-se dos pilares mais notados para assegurar a boa impressão. Não que seja néscio. Mas seu esforço direciona-se ao exibicionismo e não ao aprendizado.
Uns exibem grifes. Ele citava clichês.
[alguns diziam que
porque era feio, ostentava sua vaidade intelectual. Isso garantia à sua alma um
pouco mais de aconchego. Se não podia contar vantagem com a casca, sua
imodéstia alardeava uma faceta de seu presunçoso caráter]
Costumeiramente, preparava-se de modo minucioso para adornar sua vitrine de
ligeiros conhecimentos. Cada pormenor é lapidado para ostentar sua habilidade
em assuntos gerais aparentemente inteligentes.
Muitos impressionam-se. Seus discursos silenciam. Garotas
admiravam-no.
Ele sabe que citar Dostoiévski impressiona. Sempre soube.
O nome Dostoiévski impressiona. Poucos conhecem Dostoiévski.
Quantos leram Dostoiévski? Quem sabe escrever Dostoiévski?
Mas Dostoiévski é um nome que impressiona.
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