Ele a transportava agasalhada em seus braços. Daqui pra lá,
de lá pra cá.
Ela parecia confortável ali. Feita sob medida, talvez. Há
quem dissesse que foram feitos um para o outro.
Quanto apego, quanto ciúme, quanto zelo. Cena bela era vê-lo
passar com sua caixa.
Aparentemente ele queria soltá-la para alternar entre brincadeiras.
Mas ela o impedia. A atração entre ambos era absoluta, obsessiva, magnética.
O garoto era novo, de uns dois ou três anos. Tinha cabelos
castanhos, joelhos voltados pra dentro e arrastava suas sandálias ao caminhar. Ele
falava pouco, mas pronunciava bem as palavras difíceis que já faziam parte de
seu limitado vocabulário.
Já a caixa, aparentava ser muita mais velha do que realmente
era. Suas miúdas viagens e deslocamentos a deixaram gasta, talhada, além de um
pouco suja.
Seu corpo era de papelão. Simples. Mas isso nunca impediu a
efluência de sua alma. Alma que, de fato, ela não tinha – mas disfarçava como
ninguém.
Suas fissuras mais leves sugeriam diversão. As mais
aprofundadas, aventuras.
Todavia, nada instigava mais do que a curiosidade por saber
o que havia do lado de dentro da caixa, afinal, via de regra, ela permanecia
fechada.
Ai daquele que ousasse abri-la! Ai daquele que ousasse deslacra-la!
Qual seria o tesouro daquele guri? Talvez nunca saibamos.
Contudo, de uma coisa podemos nos lembrar:
Guris não acumulam bens. Tampouco calculam seu valor.
Guris acumulam significados e sim, os valorizam em demasia.
Não havia carrinhos. Havia segurança.
Não havia pedrinhas. Havia diversão.
Não havia tampinhas. Havia histórias.
Naquela caixa havia sentido. Mais sentido que no mundo
inteiro.
Naquela caixa havia vida.
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