Ele queria encontrar-se numa situação mais conveniente, mais
aprazível. Sentir-se em meio a uma multidão de vítimas tem feito dele confusamente
ingênuo – é o que ele vem discretamente afirmando por aí.
Ele gosta de ajudar, mas estaria sendo transformado em um impensante e atordoado ser oco? Sim. Oco e frio – para sua dolorosa decepção.
É como se cada indivíduo ao seu redor estivesse sofrendo
mais que ele sempre, a todo momento. Não há alguém apto a dar-se. Apenas a
pedir, com destreza e habilidade cênica.
Será que alguém poderia lhe oferecer alguma coisa? Um pão?
Uma bebida? Um minuto?
É como se cada pessoa possuísse uma dor maior que a sua, a
todo momento. Não há tempo para desconsolação! Lamúria, jamais. Como se
houvesse uma competição de necessidades onde as suas ficam sempre na lanterna,
derradeiras como pontualidade em manhã dominical.
....
E mal sabe ele que
também vem se tornando vítima, pois já perdeu a sensibilidade. Ao ponto de
sentir-se desconfortável quando é bem tratado, servido.
....
É como se todo mundo precisasse tanto dele que ele torna-se
nulo em suas vontades, vão em preocupações e caduco em pleitos – ele não é digno de dó,
apenas se compadece de tantos vitimizados.
[ou pseudo-vitimizados]
As vítimas são exigentes: rigorosamente lhe cobram
civilidade, fé, polidez, sapiência e até silêncio, quando muitos, não conteriam
os mais legítimos berros.
Sua história é improvável. Ele tornou-se improvável.
Ele é apenas um ajudador. Não que ajudar seja uma atitude pobremente
desnivelada de qualquer sublime vocação – sua nobreza talvez seja inenarrável.
Mas cada um tem seus limites. E ele, aparentemente, põe a prova os seus.
Ele trabalha em período integral, cobre turnos, faz bandeira
dois à preço de um e acumula horas
extras para que haja satisfação de necessidades e solução de problemáticas dos
demais. Ou, ao menos, a atenuação delas.
Ele empenha-se aguerrido. Cansado, suspira. Recobra o
fôlego. Continua.
Ele ama. E quer sentir-se.
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