....
– Oi, me vê dois quilos de abadejo. Por favor.
– Agora, pode deixar!
– Senhora, corto em postas?
[Inocentemente ele disse “senhora”. Ela odiava esse tratamento. E ela nem era velha. Mas era mulher: o suficiente pra implicar com a mais longínqua possibilidade de lidar com o envelhecimento, mesmo que aparente ou até inexistente. Obviamente ela controlou-se para sustentar a cortesia no diálogo. Concentrou-se, ainda, no factual – ele era apenas um parvo peixeiro.]
– Sim, moço, pode ser.
[Ao chamá-lo de moço – o que, de fato, ele nem percebeu, já que tantas eram suas alcunhas e, essa, era uma das mais nobres – ela novamente constrange-se. Por quê? Porque, inexplicavelmente, seu coração palpitara de modo incomum e, por mais ridículo que isso pudesse parecer, ela reparou. Ela sentira-se fugazmente atraída por ele – sem que ele fizesse absolutamente nada significativo e mesmo a chamando de “senhora”. Evidentemente, tudo isso ocorre em ligeiros três segundos. Mas que, pela beleza do momento, pareceram quatro. Talvez cinco.]
– Eu ia aconselhar a senhora a levar robalo. Mas tô sem robalo hoje.
– E por que eu levaria robalo? Você nem sabe o que vou preparar. E não precisa me chamar de senhora. Dora. Meu nome é Dora.
– Muito prazer Dora. [elevando um pouco o braço, sem poder tocá-la, em função do balcão e da mão, ambos sujos de peixe.] Eu sou Rubens.
Ela deu com os ombros. Sutilmente. Não aparentou descaso.
– Pois bem, Rubens, além de peixeiro, é adivinho? Por que eu levaria robalo?
– Porque a senhora, quer dizer, você, sempre leva linguado. Toda vez. Penso que deve fazer filés. Então, acho que deveria experimentar fazer filés de robalo, porque fica mais macio.
[Ela estarrecera-se. Ele a observava em suas últimas idas a peixaria. E ela, nunca o havia notado. E mais, nunca o notou como dessa vez: anatomia robusta, largo em ombros e simpatia. Seu carisma sobrepujava qualquer odor písceo. Seu olhar, demasiadamente atencioso, transmitia confiança – algo que ela não recebia dos homens há alguns anos.]
Plena em crença, ela defendeu-se:
– Você não pode presumir o que eu vou cozinhar só pelo tipo de peixe que eu compro. Garanto que você nem sabe cozinhar.
– Realmente, eu não sou bom de cozinha. Mas minha esposa, aquela ali, sabe e sabe muito bem. E toda vez que vemos a senhora embaixo do bloco, ela comenta: “olha a mulher do linguado”.
....
Nenhum comentário:
Postar um comentário