quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Linguado


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Oi, me vê dois quilos de abadejo. Por favor.
Agora, pode deixar!

Senhora, corto em postas?

[Inocentemente ele disse “senhora”. Ela odiava esse tratamento. E ela nem era velha. Mas era mulher: o suficiente pra implicar com a mais longínqua possibilidade de lidar com o envelhecimento, mesmo que aparente ou até inexistente. Obviamente ela controlou-se para sustentar a cortesia no diálogo. Concentrou-se, ainda, no factual – ele era apenas um parvo peixeiro.]


Sim, moço, pode ser.

[Ao chamá-lo de moço – o que, de fato, ele nem percebeu, já que tantas eram suas alcunhas e, essa, era uma das mais nobres – ela novamente constrange-se. Por quê? Porque, inexplicavelmente, seu coração palpitara de modo incomum e, por mais ridículo que isso pudesse parecer, ela reparou. Ela sentira-se fugazmente atraída por ele – sem que ele fizesse absolutamente nada significativo e mesmo a chamando de “senhora”. Evidentemente, tudo isso ocorre em ligeiros três segundos. Mas que, pela beleza do momento, pareceram quatro. Talvez cinco.]

Eu ia aconselhar a senhora a levar robalo. Mas tô sem robalo hoje.
E por que eu levaria robalo? Você nem sabe o que vou preparar. E não precisa me chamar de senhora. Dora. Meu nome é Dora.
Muito prazer Dora. [elevando um pouco o braço, sem poder tocá-la, em função do balcão e da mão, ambos sujos de peixe.] Eu sou Rubens.

Ela deu com os ombros. Sutilmente. Não aparentou descaso.

Pois bem, Rubens, além de peixeiro, é adivinho? Por que eu levaria robalo?
Porque a senhora, quer dizer, você, sempre leva linguado. Toda vez. Penso que deve fazer filés. Então, acho que deveria experimentar fazer filés de robalo, porque fica mais macio.

[Ela estarrecera-se. Ele a observava em suas últimas idas a peixaria. E ela, nunca o havia notado. E mais, nunca o notou como dessa vez: anatomia robusta, largo em ombros e simpatia. Seu carisma sobrepujava qualquer odor písceo. Seu olhar, demasiadamente atencioso, transmitia confiança – algo que ela não recebia dos homens há alguns anos.]

Plena em crença, ela defendeu-se:

Você não pode presumir o que eu vou cozinhar só pelo tipo de peixe que eu compro. Garanto que você nem sabe cozinhar.
Realmente, eu não sou bom de cozinha. Mas minha esposa, aquela ali,  sabe e sabe muito bem. E toda vez que vemos a senhora embaixo do bloco, ela comenta: “olha a mulher do linguado”.

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